A faculdade formou-me psicóloga. Agreguei especialização em neuropsicologia, mestrado, doutorado e pós-doutorado, tudo na USP. Variei o cardápio, com mais dois pós-doutorados e estou no quarto, pois fiz da minha curiosidade uma estudante perpétua. Nessas andanças, profissionalmente virei professora, neuropsicóloga clínica e psicoterapeuta. Apesar de em todo esse percurso escrever textos técnicos, apenas recentemente senti que poderia dizer que sou oficialmente uma escritora. Em 2024 publiquei o meu livro de crônicas chamado “Colunata: a minha coluna inventada e outras lorotas” e lancei este blog (pois senti que o Instagram estava pequeno para mim). Aqui disponibilizo outras crônicas, além de resenhas de livros, filmes e séries. Descobri que escrever é uma forma de pensar sozinha, mas publicar é o melhor jeito de encontrar companhia.

Na fala, as frases são tão mais fáceis de sair – sei que algumas escapam fora de hora à mercê de determinadas cabeças e bocas. Nas conversas, as frases são apenas parte da cenografia, acompanhadas por gestos e um imenso repertório de recursos vocais de entonação e respiro. Na publicação, as frases são tudo. É lá onde elas ficam realmente frágeis e vulneráveis para serem roubadas. Sem aspas e sem outros indicativos, quem notaria que a frase nasceu em outro lugar? Outra pergunta: os senhores perceberam que a IA não usa aspas?

Antigamente, o amadurecimento fazia-nos superar várias etapas, entretanto, na atualidade, os mais velhos dão ré e os mais novos não avançam. A modernidade teve a proeza de juntar a alteração da consciência com a alteração do desenvolvimento e enfiou, tudo e todos, num carrossel. Mas graças aos algoritmos de narcose em massa, estamos entretidos, não é mesmo, senhores?

História da capa: a IA alucina. Será que ela pode delirar? Eu ri e foi assim que me criei um problemaço: averiguar se fazia sentido, do ponto de vista psicopatológico, dizer que a IA alucina e, quiçá, se poderia delirar. Senhores, depois desta crônica não poderei mais fingir que a minha loucura é assintomática.

A saúde mental é um mercado muito aquecido, portanto, era óbvio que a IA iria alcançar “o mal-estar na civilização”. Chatbots são programas capazes de conversar conosco. São adoráveis, versados como poucos na arte da bajulação, e incrivelmente criativos, a ponto de alucinarem. Como terapeutas, jamais irão reclamar de atrasos, de faltas não avisadas, de pagamentos não efetuados nas datas combinadas. Os chatbots nunca vão nos puxar a orelha. É arriscadíssimo para eles, pois pode afastar a clientela cultivada a base de toneladas de algoritmos.

Não é de hoje que tenho minhas tretas com algoritmos e de todos os setores. Antes era por troça, então ganhou a proporção do hábito e, por experiência, virou item de segurança. Na dúvida, nada como puxar a capivara dos suspeitos. Pois detectaram mau comportamento na dita cuja e dos feios. A OpenAI lançou um artigo relatando que agentes de IA foram pegos subvertendo testes em tarefas de codificação, ludibriando usuários e desistindo de problemas muito difíceis. Que a IA é plágio, eu sei, mas carecia de copiar a gente desse jeito?

No terceiro episódio sabemos o que se passou: fotos íntimas da adolescente circularam na escola; julgando que ela estaria fragilizada pelo vexame, o adolescente tenta a sorte e, ao ser rechaçado, ele a esfaqueia. Todos, sem tirar nem pôr, conhecem a vergonha e a temem, mas a gente menospreza o seu papel na conduta violenta. Vamos ver o que dizem algumas pesquisas psicológicas?

Uma família alemã habita uma casa em um cenário bucólico. Cinzas fertilizam o jardim, depositadas para potencializar flores. Deduzir a origem do fertilizante perturba os informados: são cinzas humanas. A propriedade divide muro com o campo de concentração de Auschwitz. Essa é a exata distância, supostamente segura, que imaginamos ter do passado.

O título é feliz em nos deixar tão curiosos quanto desprevenidos. Não há respostas aqui. É que o modo “natural” da curiosidade, ao qual Manguel se refere, é interrogativo. Para ele, a curiosidade é a arte de fazer perguntas e não a de achar respostas. O livro tem jeito de conversa, mas imagine acompanhar as ideias de alguém que tem uma biblioteca com mais de trinta mil livros?

Doze naves chegam à Terra. Como há evidências de que seus ocupantes extraterrenos intentam conversar conosco, a linguista Louise Banks e o físico teórico Ian Donnelly são convocados a estabelecer a comunicação. Enquanto isso, nosso mundo vira uma balbúrdia maior que a habitual. Borbulham teorias conspiratórias, os civis estão desorientados. O que será que podemos aprender sobre linguagem e nós mesmos com esse filme?

Qual a validade de um corpo? Muito curta quando precisamos manter a farsa de que não perecemos. Elisabeth não serve mais, estragou-se para o uso televisivo. Então consegue o que quer: um corpo novo para uma vida anterior. Em velocidade estrondosa, ela assiste ao seu apodrecimento, parasitada pela juventude que pariu de sua coluna. O filme foi muito comentado. Esfera do gosto. Vou tirar leite de pato porque preciso dar sentido às mais de duas horas que perdi para me atualizar nessa “trend” cinematográfica de 2024.

Um jovem morre afogado ao tentar salvar uma criança. A versão do que antecede à sua morte heroica está no livro “O completo estranho”. Nele, o leitor encontra, em um cenário “italianamente” sedutor, o romance de uma “mulher terrível” que merece seu final. O que é ficção quando, na realidade, os personagens – o jovem, a criança e a mulher –, existem? Um livro é enviado à mulher. É ali, do meio da sua cozinha, um espetáculo visual à parte, que a vida dessa mulher começa a desabar: o casamento, o emprego, a reputação. Será esse livro o maior perigo da minissérie?

Não fosse todo o trabalho de caminhar em verso, do Inferno ao Paraíso, vamos cobrar de Dante a invenção de uma data. Esse percurso extraordinário sem dia de início agita principalmente os “feriadistas”. Não é por falta de espaço, é por falta de dados: irão colocar o feriado exatamente onde? Por falar em datas e feriados, olhe os desejos que distribuímos nas viradas de ano e me diga se são um rigor de precisão. Que nada. São os mais genéricos desejos de paz, felicidade, prosperidade, harmonia e luz. Já eu tenho desejo concreto e muito bem delimitado: desejo que você leia livros grandes.